As velas ardiam junto às paredes de pedra quando entraram no bar. Ela e três casais. Vinham do ar fresco da noite com risos baixos. O aviso na porta pedia silêncio, o sossego para aqueles que já dormiam nas janelas vazias. Passava da uma da manhã mas o interior permanecia pouco movimentado.
A primeira sala na penumbra, pequenos grupos sentados em bancos altos conversavam sob o som pesado das músicas. The Cure. Passaram a parede para junto do balcão. Três candeeiros iluminavam a madeira escura, vazia de copos, enquanto o barman bebia qualquer coisa com os seus gestos descontraídos.
“Bebes qualquer coisa?”
“Não, ainda não.”
A atenção dela soltou-se dos movimentos fluidos do barman para uma radiografia junto da parede, à esquerda. Uma radiografia abdominal que mostrava um piercing por sobre as sombras ósseas.
“Vamos sentar-nos, há lugar nos sofás.”
Ela seguiu o grupo para a sala seguinte. Pequenas mesas e sofás dispunham-se em fila de um lado, repletos de copos vazios e velas acesas. Um candeeiro em forma de garrafa dava um ar ainda mais alaranjado à sala. Na parede em frente, uma porta de madeira, os seus pesados ferrolhos fechados, pendurada a meio caminho entre o chão e o tecto. Sentou-se na cabeça da mesa enquanto analisava a porta. A madeira escura e velha, cheia de fendas e reentrâncias, as barras de ferro enferrujadas que a percorriam de um lado ao outro, as fechaduras enormes, as teias de aranha que se continuavam para o tecto até ao candelabro vazio. Decerto não daria a lado nenhum…
Reparou que todos conversavam acima da música. Não soube dizer sobre que falavam mas viu-os rirem-se de algo. Tentou tomar atenção mas os acordes sobrepunham-se às frases e só soube apanhar palavras sem sentido. Decidiu que não importava.
O barman veio buscar os copos vazios. À frente dela, na mesa, restava agora uma fila irregular de velas que ardia num tom quente. Deixou que os seus olhos seguissem a luz enquanto respirava fundo, captando em si todas as sombras da sala, as vibrações da música, o cheiro acre a tabaco e cerveja.
O olhar cruzou-se com outro. Um rapaz sentado, parado e silencioso, olhava-a nos olhos do outro lado da sala.
“Da maneira que olhas as chamas parece que precisas de companhia.”
“Eu tenho companhia.”
“Bem sei, eu consigo vê-los.”
Ela olhou para o grupo de relance. Continuavam a conversar. Só ela é que o ouvia?
“Eles…”
“Não eles, os outros…”
Ia perguntar “Que outros?” mas nesse preciso momento a luz das velas tremeluziu e ela conseguiu vê-los. Pequenos espectros laranja flutuavam à volta dela misturando-se no fumo do tabaco e nas sombras que deslizavam das paredes. Engoliu em seco.
“Pensei que conseguisses vê-los…”
“Devo ter medo?”
“Não sei, tu é que os conheces…”
Ela hesitou. Não se lembrava de alguma vez os ter visto, mas sim, ela sabia que eles lá estavam mesmo antes de eles aparecerem aos seus olhos. Estariam sempre ali?
“Não sei, como disse, tu é que os conheces…”
“Quase podia engarrafa-los, vende-los. Seriam uma espécie de fumo espesso dentro de garrafas de vidro fosco. Ia ficar bonito…”
“Ou podias simplesmente deixa-los estar.”
“Desde que me deixem ver o caminho.”
“Sim, o caminho até ao balcão… vens?”
Viu-o levantar-se devagar, o seu olhar ainda colado ao dela, e dirigir-se ao balcão do bar.
Ela levantou-se também, sem qualquer hesitação, e juntou-se a ele. Àquela distância conseguiu cheira-lo, algo doce que não soube distinguir.
“Absinto.”
O barman enchia já dois pequenos copos de vidro com um líquido esverdeado. O rapaz pegou nos copos e estendeu-lhe um. Pegou nele com cuidado, sentindo o liquido molhar-lhe a ponta dos dedos.
“Há sempre uma fada verde em cada copo de absinto. Pena que os teus amigos laranja não a deixem materializar-se.”
“Deixam, se eu lhes pedir.”
“Pede então. Queria vê-la antes de ela me tomar por completo.”
Ela fez o pedido em silêncio, um misto de súplica e ordem. Eles teriam de obedecer, não podiam simplesmente segui-la assim e fazer tudo o que lhes apetecesse.
Um momento e os espectros laranja desapareceram. Os copos iluminaram-se numa luz verde fantasmagórica e duas pequenas fadas saíram do líquido, a voar.
“Muito bem… olha como são lindas.”
E realmente eram. Pequenos seres sorridentes vestidos de verde, as asas batendo mais depressa do que o olhar humano poderia discernir, todo o seu corpo lançando uma luz suave que se reflectia na superfície do líquido de onde tinham saído.
“Adeus pequena.”
O absinto escorregou-lhe pela garganta num instante e ela imitou-o. As fadas desapareceram como se nunca estivessem lá estado e a garganta dela incendiou-se sob o álcool. A expressão de ambos, no entanto, foi apenas de prazer.
“Agora só te resta ver o que está por de trás da porta.”
“Pedras, como o resto da parede.”
Ele dirigiu-se de volta à sala dos sofás, até junto da porta. Ela seguiu-o. Pararam lado a lado, fixando a porta fechada em silêncio. A mão dele subiu até junto da fechadura principal e esta cedeu, a porta entreabrindo-se à sua frente. A outra mão estava já esticada para ela.
“Vens?”
Ela pegou na mão dele. Entraram.
Ficção. Quase tudo excepto o bar, Pherrugem, que pode ser encontrado em plena noite do Porto.